Cheguei no estúdio da Jayanti atrasado. Que belo começo para minha primeira experiência com terapia tântrica. O Uber teve que pegar outro passageiro e o trânsito da Tijuca não perdoa mudanças de trajeto. Fui resolvendo problemas do trabalho no celular e respondendo comentários no meu canal no Youtube, coisa bem cerebral, típico comportamento de quando estou sozinho comigo mesmo.

Sou o tipo de cara que se orgulha de não desperdiçar tempo. Onde cabe, invisto mais uns minutinhos com a cara numa tela.

Subi e tomamos um café. Minha terapeuta e amiga me contou dos planos dela, de como quer levar o tantra verdadeiro ao público, e acabar com a visão deturpada do que pensam ser o tantra no Brasil. Aqui, infelizmente, tanto o aspecto tântrico quanto a própria idéia de massagem e terapia são extremamente distorcidas por uma milionária indústria do sexo. Felizmente, não era sexo que eu esperava naquela noite, e sinceramente não fez falta alguma.

Após o café começamos com umas perguntas básicas: se fumo, bebo e como me alimento, o que parece ser o padrão da primeira sessão. Ela me explicou que iríamos primeiro trabalhar minha respiração, para depois ela usar o toque e abrir pontos de pressão no meu corpo. Entendi que a respiação adequada era essencial, e de certa forma fiquei feliz por já ter um pouco de prática com meditação e boxe, duas atividades que dependem de uma boa respiração.

De cara com a Morte

Depois dessa conversa inicial, fomos para m espaço menos iluminado, onde começa o tratak, ou “yoga dos olhos”, a fase inicial de uma terapia tântrica. Me despi e sentei de frente a Jayanti, olhando fixamente seu olho direito. A orientação foi não piscar, mesmo que sentisse os olhos irritados ou lacrimejando. Em poucos segundos estávamos ambos soltando lágrimas. Ela me explicou que nesse momento ocorre algo chamado transfiguração, em que a minha visão iria começar a perder o controle da realidade, imaginar formas geométricas e transformar a imagem da pessoa sentada na minha frente, que poderia aparentar ser mais jovem, mais velha, ou mesmo um monstro.

O que realmente aconteceu foi um pouco diferente. Ela não pareceu mudar de idade, mas conforme falava, seu aspecto ficava cada vez mais pálido, indo aos poucos para o cinza e finalmente se decompondo. A pele afinava, e finalmente parecia se descolar do rosto, esfarinhas e se fazer em pedaços. Minha amiga estava morrendo na minha frente, ou então adquirindo o aspecto da Morte. Olhar nos olhos vazios dela era perturbador, mas mais ainda era ver a pele em volta perdendo a cor e o brilho da vida. Mantive a duras penas o contato visual, lacrimejei muito e parei de tentar controlar a experiência, só senti o que estava acontecendo.

Quando você está sentado, nu, na frente de outra pessoa segurando suas mãos, existe muito pouco ou quase nada a temer.

Sensações Etéreas

A terapeuta tântrica pediu para eu fechar os olhos e me deitar, o que prontamente atendi. Seguindo a recomendação de Jayanti, passei a respirar só pela boca e imediatamente comecei a sentir um formigamento no rosto, principalmente nos lábios e nas bochechas. Com toques suaves na barriga e nos braços, ela começou a segunda fase da terapia, uma massagem sensitiva para soltar minha sensibilidade ao tato, de início comigo de barriga pra cima, e depois me colocando de um lado, de outro e de bruços. Senti calor, ternura e carinho. Senti um pouco de vergonha também. Me perguntei o que ela estava pensando, o que escreveria nesse relato que você está lendo agora, como isso seria nas próximas sessões quando eu já estiver acostumado com essa dinâmica, como estava sendo na hora.

Os toques eram extremamente leves, e realmente parecia muitas vezes que eu não estava sendo tocado. Em outros momentos, as pontas dos dedos dela se combinavam ao cabelo e a leves sopros, que causavam reações inesperadas no meu corpo. Não era sexual, mas era sensorial, bastante sensorial.

Pensava isso às vezes, rapidamente, porque a maioria do meu tempo foi concentrada na minha respiração. No começo era cansativo respirar só pela boca. A garganta secava, o ombro coçava, mil movimentos pediam minha atenção e imploravam pela chance de serem executados. Ignorei todos eles e me entreguei ao relaxamento completo do corpo, causado por aquele toque que quase não era um toque.

Muito Frio

Próximo do final, ela vendou meus olhos que já estavam fechados, e me deixou sozinho comigo mesmo. Pela primeira vez em muito tempo, pude sentir meu corpo, ouvir minha mente, sem ter nenhum estímulo externo. Nenhum e-mail pra responder, nenhuma notificação numa tela, nenhum incêndio da empresa para apagar. Ao mesmo tempo que senti essa libertação, também senti um frio gélido tomando conta das minhas pernas, mãos, peito e pescoço.

De novo, a morte falava comigo. Mas dessa vez sem as palavras da minha terapeuta. Ela falava com minha pele, me fazendo sentir um frio quase congelante. Falava com minha audição, através de uma música que me fazia sentir sem gravidade, e falava com minha mente, sutilmente dizendo para eu me deixar levar.

Senti solidão, frio, silêncio, mas também leveza, desapego, liberdade…

Aos poucos, fui parando de me incomodar com aquelas sensações. Pessoalmente tenho um medo horrível da morte por acreditar que ainda tenho um legado a deixar, pro meu filho e pro mundo. Mas naquele momento eu sentia a morte de perto, imaginava se essa era a sensação de morrer de fato, ou se era só o meu cérebro associando uma ideia àquela experiência. As sensações, que antes tomavam seu tempo e se alternavam lentamente, começaram a interagir e trocar de lugar com mais velocidade, até que pareciam estar ativas todas ao mesmo tempo.

Num dos poucos momentos durante toda a sessão tântrica que me lembro de ter articulado uma frase em minha cabeça, pensei “Relaxe, você precisa aceitar isso para seguir em frente…”

A Volta

Jayanti me disse para voltar, aos poucos, à consciência física. Estalar alguns dedos, esticar os braços, abrir lentamente os olhos. Me perguntou o que eu senti e, ainda torpe pela experiência, expliquei por cima o que você leu até agora. Ela sorriu, disse cada pessoa vive algo diferente, e que já ouviu pacientes falando em sensação de morte antes.

Não sei exatamente o que me aguarda nas próximas sessões, e sinceramente confio no imprevisível e na minha terapeuta. Mas posso já compartilhar com você que, não importa o quanto você tenha se identificado com os parágrafos acima, nenhuma descrição em palavras faz justiça ao que é uma sessão de terapia tântrica. Talvez seja porque ela ativa sesanções e emoções mais velhas e mais inerente ao ser humano do que a própria linguagem. Talvez seja porque ela acesse a memória celular, indo mais profundo do que nossas mentes conseguem com mera observação e filosofia.

A verdade é que só experimentando isso na prática você consegue ter uma ideia do que é a terapia tântrica, do que vai viver e de como isso funciona. E que mal posso esperar pela próxima sessão.