Em junho desse ano passei duas semanas em Florianópolis fazendo uma imersão com meu sócio. A gente trabalhou, conversou, leu, gravou muito e trabalhou mais. E eu aproveitei para me alimentar de forma mais saudável já que o Felipe é meio que um nerd nessas coisas. Mas já fazia um tempo que eu queria me desafiar a não beber álcool.
Poucas semanas depois de voltar pro Rio de Janeiro, decidi não beber por um mês e ver o que acontecia. Duas semanas depois aumentei meu prazo para 1º de janeiro. Resolvi “queimar as pontes” e não beber mais esse ano. Não foi pra mostrar que eu posso nem pra bancar o bonzão, e sim pra saber que efeitos isso ia ter em mim e nos outros. No momento estou há 3 meses sem álcool, exceto por goles ocasionais causados por pessoas desavisadas do meu desafio.

O Que Mudou

Até agora, vou ser sincero, não notei muita diferença de saúde, exceto ter MUITO mais energia nos dias seguintes às saídas de noite. Como deve ser fácil de imaginar, meu trabalho exige muita prática em festas, e nisso o Semestre Zero Álcool realmente está contribuindo. Eu simplesmente caio na cama às 5 ou 6 ou 7 da manhã e acordo 6 horas depois como se tivesse dormido a noite toda, pronto pra arrebentar. Quando eu bebia duas Heinekens ou uma capirinha – que eu adoro – numa noite a metade do dia seguinte ia pelo ralo. Faltava clareza mental, às vezes rolava uma dor na região dos olhos ou na testa logo depois de acordar e eu só conseguia produzir direito de noite.
Fora isso, não teve muita diferença nesse lado. Meu peso está estável, não sinto muita diferença em termos de energia durante o dia e não houve nenhum aumento de performance na minha atividade física.
Em compensação minha carteira está curtindo bastante essa resolução. É fácil subestimar o gasto em escala das bebidas superfaturadas na noite carioca quando a gente não soma as duas de ontem com as duas de sábado passado. No Palaphita, onde costumo ir com alunos e amigos, uma cerveja pode custar R$18. E isso cresce exponencialmente ao longo do tempo se você permite.

A Surpresa

Foi engraçado no começo explicar o que estou fazendo, mas depois do choque inicial e de algumas risadas a maioria das pessoas entende e se lembra.

Na verdade o que mais me surpreendeu foi isso, as pessoas LEMBRAM. E participam.

Achei que ia ser provocado e questionado por conhecidos o tempo todo por causa do desafio, mas quase todo mundo tem reagido muito bem e até incentivado a manter a disciplina. Uma amiga minha promoter me ofereceu uma bebida de graça num domingo e ficou sabendo da minha decisão. Na quarta seguinte já estava dando um esporro no namorado dela, também promoter, também meu amigo, que tentava fazer a mesma coisa.
Essa talvez tenha sido a grande lição até agora. Sempre ouço de amigos e colegas que é difícil enfrentar a pressão social para beber, e isso num grupo de pessoas que costuma ser bem sério quanto a evitar o álcool para se expressar melhor socialmente. O que descobri esse trimestre foi o quanto é importante ser assertivo em suas relações sociais. A maioria das pessoas quer identificar você em padrões de comportamento e associações mentais. Se você já leu Subliminar, do Leonard Mlodinow, sabe que não deve culpar seus amigos por isso, já que essa é uma ferramenta do nosso cérebro para ajudar o mundo a fazer sentido e liberar espaço mental. Somos criaturas associativas, segundo Mlodinow.

Como Fazer Você Também

Isso significa que o primeiro passo para fazer um desafio desses e não ser atrapalhado pelos seus próximos é estabelecer desde o início que você é esse tipo de cara que testa e descobre coisas novas. Desenvolver essa curiosidade e expressá-la quando possível vai blindar você contra críticas do tipo “Pra que fazer fazendo isso, o que você quer provar?”. Se desafiar por você e não para provar nada para ninguém também ajuda, caso não tenha ficado claro.
Outra boa estratégia é substituir hábitos, especialmente se você quer se livrar de algum vício. Me lembro do quanto começar a escrever em 2011 me ajudou a fumar muito menos. Eu matava um maço por dia antes disso e hoje mal consigo fumar um cigarro até o final e passo meses sem encostar em um. Se você tem o hábito de beber para “se soltar” e ficar menos tímido, talvez só se obrigar a falar com pessoas sem álcool seja suficiente, ou talvez valha à pena investir o dinheiro economizado com bebidas numa aula de dança, que você pode praticar depois nas festas e usar como alavanca para socializar.
Na minha opinião o ideal é você não precisar de nada para interagir com pessoas, paquerar e se relacionar, mas tá tudo bem se você quiser começar de leve. “Baby Steps” funcionam.
No geral, até agora a experiência tem sido divertida, econômica e útil. Eu provavelmente vou tomar uma bela caipirinha dia 1º e imagino que depois de seis meses sem álcool, só beba em ocasiões especiais.
Acredito na verdade que essa seja a única desculpa aceitável para beber.
O Que Acontece Quando Você Passa 3 Meses Sem Álcool
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